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INDICE:
Ensinança 1: A Ascética da Oração
Ensinança 2: Discernimento da Ascética
Ensinança 3: O Objetivo Divino
Ensinança 4: A Ascética Continuada
Ensinança 5: Autocontrole
Ensinança 6: A Meditação: Seu Aprendizado
Ensinança 7: O Exercício da Meditação
Ensinança 8: O Exercício da Meditação Intelectual
Ensinança 9: A Sensibilidade na Meditação
Ensinança 10: A Meditação e a Técnica do Exercício
Ensinança 11: A Invocação
Ensinança 12: O Quadro Imaginativo
Ensinança 13: As Sensações
Ensinança 14: Os Propósitos
Ensinança 15: Dificuldades na Perseverança da Meditação
Ensinança 16: A Ressurreição de Hes
Ensinança 1: A Ascética da Oração
A vida interior deve estar centrada em Deus e não nos atributos de Deus que afastam do fim primordial.
O progresso especializado das faculdades racionais tem afastado de certa forma ao homem da Idéia Fundamental de Deus.
É verdade que em tudo está a Divina Presença, mas isto não significa que a expressão divina tenha que se constituir em divindade.
É necessário que o homem chegue a um contato real e individual com a Divina Mãe. Nada nem ninguém poderá lhe dar a verdade, senão sua própria experiência. Para conseguí-lo deve tomar todas suas energias, centradas no mundano e enfocá-las no puramente espiritual e divino.
Alguns crêem que isto não é necessário, porque também no mundo está a Divina Mãe e nada há fora d´Ela. Mas o certo é que não vão chegar à Divina Mãe deste modo. Não basta a adesão intelectual ao espiritual. Esta adesão não é real se não abarca todo o indivíduo. O mundo é uma escola, e o corpo e a alma são só instrumentos. Não tem interesse, senão como tais e quando adquirem um valor que não é o seu perdem seu sentido como instrumentos e meios de liberação para fazer-se fatores de ilusão e ignorância.
É importante a transformação do modo de pensar, mas para que a vida espiritual tenha sentido esse novo modo de pensar deve estar corroborado por fatos concretos de vida, conseqüentes com a idéia fundamental da alma. Enquanto a vida espiritual seja só uma atitude parcial do ser o corpo e a alma serão bens em si mesmo, constituirão outra atitude contrária. Isto quer dizer que a vida espiritual não será um ato total do ser, senão atitudes em pugna.
A Renúncia ao mundo não é um rechaço, senão a colocação dos valores humanos que só assim adquirem um caráter divino.
Enquanto os bens mundanos sejam o objetivo do homem o mundo será um mundo de dor, e enquanto o corpo e a alma sejam valores em si mesmos não poderão constituir-se em instrumentos de experiência impessoal.
Ainda quando a aspiração da alma seja a união com a Divina Mãe em realidade sua oração começa por ser nada mais do que um monólogo, uma conversação que faz consigo mesma. É como um intento de tomar verdadeira consciência de si e do que se deseja realmente.
Os pensamentos comuns do homem são uma continua conversação imaginária; esta conversação é completamente irreal e desconectada dele e da realidade circundante. Pó isso no início a meditação trata de centrar a alma em sua posição real frente a si mesma e ao mundo, dando uma consciência cada vez mais profunda de ser até que se transforma em um verdadeiro contato sobrenatural e divino.
Este contato essencial com Deus existe de alguma forma em todo tipo de oração e esforço espiritual, porém é necessário que se faça realidade viva para a alma. Este é o fim único da existência humana: chegar à União plena com a Divina Mãe, a União Substancial. Tudo o demais existe em relação de dependência a este fim.
Por isso a vida interior, como ato contínuo de vida à presença divina, é o único necessário porque é a expressão viva da alma que tende à Divina Mãe e vive já n´Ela.
Ensinança 2: Discernimento da Ascética
Para guiar as almas na ascética da oração é fundamental saber discernir.
Que tipo de exercício é apropriado às características interiores de cada principiante, conhecer qual é o tipo de mística conveniente para ele.
Dar a Ensinança adequada a cada momento de seu desenvolvimento espiritual; não querer acelerar os processos interiores senão deixar que a Divina Mãe obre neles.
Não permitir que se deixem os exercícios de meditação apenas se tem um vislumbre de contemplação.
Conhecer de antemão quais serão as possíveis dificuldades e provas que terá que vencer nas distintas etapas físicas, racionais, afetivas e espirituais.
Guiar sem tocar particularmente na via iluminativa.
Não perder de vista continuamente a integralidade da realização no caminho místico.
Evitar os perigos fundamentais, os desvios psíquicos e a desumanização.
Conhecer por experiência a trajetória humana e espiritual que a alma há de seguir.
Não há meios seguros para ter este conhecimento;só a vida interior profunda e a participação anímica dão o conhecimento certeiro das almas e de seu caminho. ‘Nada é difícil para quem ama’.
A vida no mundo é uma ascética, porém não uma ascética dirigida e concentrada na realização divina que é a dos valores integrais do ser, mas uma ascética dispersa, desordenada e carente de um objetivo consciente por parte do homem.
A ascética humana até agora não há sido um meio eficaz para a realização do indivíduo; o progresso das instituições há sido destas como abstrações independentes da realidade humana.
A ascese do mundo, mais que um meio de realização é uma expiação contínua dos erros do homem. Por isso, todos os esforços dos caminhos místicos tendem a que as almas deixem de identificar-se com o mundo para fazer dele o que é: um instrumento de realização. Como faz falta grande clareza de discernimento e força interior para transcender a atração dos bens humanos, se põem em jogo todas as forças mentais e emotivas para produzir o desapego do mundo.
Não basta saber que não é nosso mundo; há que aborrecê-lo, sentir-se desolado nele. Ao mesmo tempo se faz surgir das profundezas desconhecidas do coração toda a força do sentimento, para mantê-la cada vez mais com maior união no pensamento e a imagem ideal do Bem Divino que se aspira realizar.
Dão-se as normas exteriores e interiores adequadas para que, dentro deste mundo e de acordo ao lugar que se ocupa nele e ao tipo de vida que se elegeu, se transformem todos os atos simples da vida em meios eficazes de realização divina e se ensinam exercícios específicos que guiem os afetos, dominem as paixões e fortalecem as forças mentais do ser.
Ensinança 3: O Objetivo Divino
Para o Filho é muito importante a disciplina, o método de vida e a prática dos exercícios de oração. É indispensável contar com elementos definidos e bem conhecidos que possam constituir-se numa só ascética exterior e interior eficiente.
Mas isto só não é suficiente para as almas; elas exigem mais. Elas aspiram conseguir a plenitude que unicamente se consegue com o íntimo contato com a Divina Mãe. Esta plenitude não se alcança facilmente. O principal obstáculo é a dificuldade que tem muitos Filhos no discernimento claro de sua vocação.
O homem está aprisionado pela multiplicidade de seus desejos, e uma vontade mutável não é a mais adequada para a consecução da perfeição. Alguns Filhos entendem a Renúncia, mas ao mesmo tempo a temem. Nessas paixões encontradas está o germe de seu descontentamento e falta de realização. Se bem eles não saberiam não definir exatamente que lhes pede sua vocação de Renúncia, sabem que para realizá-la hão de desprender-se de tudo que até agora se há constituído num bem e num alimento da ilusão de viver.
É bom que os Filhos saibam, que sejam conscientes, que se dêem conta que a vocação é Renúncia; que se não se realiza é por falta de valor, ou por temor, mas não por falta de possibilidades. Não há que alimentar ilusões.
A Renúncia é uma e única. Sem embargo tem que se adequar ao meio, ao tempo e às necessidades específicas das almas.
O Filho quer renunciar, mas ao mesmo tempo sabe e não sabe como fazê-lo. Não sabe, porque a Renúncia em si é algo impossível de aprender, de compreender, de possuir. A Renúncia se é; e se não se é, é sempre algo inalcançável que parecera afastar-se ao acercar-nos.
Se bem a Renúncia é um estado sempre Divino, pode ser possuída paulatinamente através de meios humanos concretos e definidos.
A paz interior não se obtém logo de haver vencido todos os obstáculos, senão que é fruto de haver empregado todo o ser, sem reservas, continuamente, na consecução da perfeição. Enquanto há desejos múltiplos e pensamentos encontrados não há paz.
Como no mundo a vida interior e quase desconhecida, se dá muita importância aos atos, mas os pensamentos, fantasias e ilusões da mente e o coração permanecem livres e sem controle. Todo o ser deve absorver o esforço da Renúncia e não só uma parte dele. Por isso é necessário conhecer qual é a força do temperamento, os hábitos, as tendências naturais e os exercícios ascéticos do método espiritual.
Sem embargo, para que os exercícios mantenham seu valor efetivo há que ter uma idéia clara dos sucessivos objetivos a alcançar e do objetivo único e permanente que rige toda a vida espiritual do Filho.
Se a Renúncia fosse um objetivo positivo com uma realização determinada, não haveria nenhuma dificuldade. O que as almas querem é ter um objetivo concreto e meios também concretos para realizá-lo.
A Renúncia não é um objetivo ideal, mas real, porém como é integral, transcende os limites definíveis dos meios e fins objetivos. É como ficar sem nada ao pretender segurar algo.
Como a Renúncia não tem limites pode originar confusões. Se é deixá-lo tudo, não ter sumo cuidado ao predicá-la e explicá-la e, sobretudo, ter conceitos muito claros.
O caminho se percorre por etapas, e cada etapa marca um objetivo bem definido a alcançar. O fato de que seja um objetivo relativo que logo haverá que transcender e renunciar à sua possessão e aos bens que derivem dele, não o nega como objetivo imediato. É só um meio, porém um meio indispensável para a realização.
O que acontece é que se bem os objetivos relativos são concretos, não o é o bem final, a Renúncia. As almas, acostumadas a medi-lo tudo em termos de esforços e resultados ficam desorientadas ao não poder situar sua trajetória dentro de uma linha conhecida com progressos visíveis e tendem a desmaiar no esforço. A Renúncia não lhes oferece bens imediatos e brilhantes que possam satisfazer seus anseios de posses; não lhes permite a ilusão de um bem possessivo nem ainda espiritual.
O Caminho da Renúncia, se bem é para todos, é percorrido somente por aqueles capazes de suster com a força ideal de uma vocação sobrenatural de amor divino, de anseios reais de liberdade.
São poucas as almas valorosas que sabem manter-se sem apoios humanos e ideais, sem o incentivo da imaginação e do futuro. Suas forças se dispersam continuamente e não adquirem nunca o potencial divino que as dissolveria como composto, para deixá-las como presença simples da alma da Divina Mãe.
Isto não quer dizer que a Renúncia não seja um objetivo para as almas, mas como é um objetivo divino, é um não objetivo para a compreensão do homem. É reversibilidade; o estado é um não estado humano, a sabedoria divina é um não saber e a conquista divina é uma perda humana. A liberdade parece escravidão e o vencimento do tempo a submissão a uma rotina inexorável.
Ensinança 4: A Ascética Continuada
O Filho que vive no mundo necessita uma grande ascética exterior.
Só fazendo de sua vida exterior uma ascética continuada pode alcançar uma vida interior rica e plena.
A Ascética da Oração consiste em transformar um ato esporádico num estado permanente.
É muito difícil alcançar no mundo um recolhimento profundo. Tudo é incitação contínua a voltar-se para fora. A oração deve consistir então, independentemente dos exercícios propriamente ditos, em transformar o exterior no interior, fazendo de tudo pontos de reversão, enfoques reversíveis do pensamento.
Todo centro de interesse exterior deve transformar-se num meio para um chamado interior. Toda essa atividade contínua que é a vida no mundo deve ser transformada por uma oração de intenção e oferenda.
Para conseguí-lo são indispensáveis pontos diários de espera. Ademais dos momentos dedicados aos exercícios de oração se necessitam outros distintos, imprescindíveis para que se inverta o movimento positivo e objetivo da alma. Poderiam-se chamar momentos de consciência, de silêncio, de aparente passividade. Ali a alma se recolhe toda em si mesma; retrai toda a força e expansão de suas potências para o interior e permanece quieta. Mas cuidado com cair em especulações mentais; todo deve deter-se, fazer-se silêncio. É um instante, nada mais, porém que pode ser preenchido rapidamente por uma consciência divina.
Isto nada tira aos exercícios e à disciplina exterior. O Filho deve aprender a meditar bem e sua disciplina deve ser espontânea; senão a oração seria até certo ponto algo fictício e forçado.
A disciplina há de ser sua segunda natureza; mas não a disciplina rígida e dogmática, senão aquela que, sendo intolerante com sigo próprio, é tolerante e compreensiva com os demais.
O Filho expressa seu amor à Divina Mãe através da veneração aos superiores, o respeito e cumprimento do Regulamento e o método feito vida nele. Sem embargo, apesar da vida totalmente ativa no mundo, não há que deixar de iniciá-lo nos mistérios da vida divina, não só em seu interior, mas em suas experiências humanas e ainda sociais.
A participação interior que se predica seria uma burla cruel se não se refletisse na compreensão afetiva dos males humanos; se persistisse a separatividade, o egoísmo e o predomínio do pessoal sobre o universal e se, ao mesmo tempo, não se buscasse uma solução prática e efetiva aos males do mundo.
Ensinança 5: Autocontrole
É necessário dominar perfeitamente a técnica do exercício de meditação.
O domínio da técnica não indica que se atingiu uma realização mística, mas demonstra que que se alcançou um grande domínio mental e emocional.
Sem um controle absoluto da mente e o coração não é possível a realização divina. Um homem sem autocontrole não é verdadeiramente livre. Os homens crêem que são livres porque podem mover-se, ir de um lado a outro, falar e pensar a seu arbítrio. Se isto fosse fruto de sua verdadeira vontade individual, mostraria que realmente são livres;porém são contados aqueles livres de pensar, de sentir, de atuar. Tudo o que o homem faz e diz em nome de sua liberdade é uma evidência contínua de suas ataduras e limitações.
O que ele deseja não é sempre o que necessita. Seu pensamento não é livre; está determinado pela mudança incessante de emoções e sensações, pelas circunstâncias exteriores, pelo seu estado de ânimo, pelo meio ambiente, pela vida.
Só o perfeito controle interior e exterior dá o conhecimento do que se é e o que não se é; daquilo que realmente se quer e do que se deseja pela influência da natureza, os seres e as coisas.
A liberdade não se obtém satisfazendo ao instante os caprichos mutáveis da imaginação e o sentimento, senão controlando a força do desejo para fazer-se dono de si mesmo. Assim se conhecem as forças internas, as boas e as prejudiciais; assim se maneja a vontade até fazer dela um instrumento de liberação. Só o domínio do corpo e da mente faz apto ao homem para a liberação e o esforço para conseguí-lo é o método ascético que rege a vida espiritual.
O primeiro passo no Caminho da Renúncia é o autocontrole. É impossível a vida espiritual se não se sai do nível instintivo passional.
O estado de Renúncia se manifesta na alma através de um controle total e contínuo. Ao mesmo tempo, a disciplina do autocontrole sustentada pela Idéia Única conduz rapidamente ao estado de Renúncia.
Este autocontrole difere fundamentalmente do controle nervoso emocional que se pratica habitualmente e que provoca com facilidade estados de tensão psicofísicos. É um controle exercido peça parte mais alta da consciência que não pensa nem analisa, senão observa, e ao observar, sabe.
Comumente se estabelece o controle ao mesmo nível das lutas interiores, provocando-se assim um conflito mental e emocional ao identificar-se a alma com as mesmas forças que combate e não pode sair da dualidade de triunfos e fracassos, ganhar e perder. A Renúncia a um triunfo pessoal sobre si mesmo, a Renúncia a um objetivo positivo como realização, transforma o esforço volitivo numa técnica e o controle é assim um superpoder mental que fiscaliza e dirige as forças interiores e exteriores. Controle interior é controle exterior e é poder sobre as forças universais.
Ensinança 6: A Meditação: Seu Aprendizado
O Filho deve conhecer bem os exercícios de meditação.
Em primeiro lugar, tem que ter disposição interior à oração; se não a tem, irá adquiri-la vencendo-se a si mesmo através da perseverança em seus exercícios. Em segundo lugar, deve aprender a técnica do exercício. Ao ensinar o exercício podem apresentar-se duas dificuldades: a dificuldade de expressão das idéias ou a verborragia.
A tendência à linguagem excessiva pode indicar uma imaginação exuberante, um caudal emotivo rico a flor de pele, um costume para as exteriorizações, um afã de domínio que oculte um complexo de inferioridade ou simplesmente, o hábito de uma conversa vã.
Quando se encontre dificuldade na expressão geralmente há que ensinar a exteriorizar as idéias. Pode haver timidez ou temor ao ridículo, ou então uma marcada introversão habitual que põe freio a qualquer exteriorização. Porém sole ocorrer que embora se saiba dizer as coisas, não se sabe o que dizer, e isto mostra a falta de conhecimento interior que tem as almas.
A dificuldade de expressão não indica uma vida interior pobre. Muitas pessoas ocultam trás um hábito de silêncio exterior verdadeiros tesouros espirituais, embora algumas só tenham uma imaginação fantasiosa, um hábito mórbido de olhar-se continuamente a si mesmo ou retornar infatigavelmente, sem parar, sobre seus próprios problemas sem sair dali, de sua auto-compaixão e seus lamentos.
Todas estas tendências são expurgadas pelo exercício da meditação e o conhecimento dado pela vida interior. O aprendizado pode custar ou não, mas ao final se consegue uma técnica. Às vezes a técnica é a grande tabua de salvação, a nova fachada que protege e desliza novamente o centro do conflito mais para dentro, sustido pelo autoconvencimento de tê-lo enfrentado; e se torna a estar centrado numa falsa personalidade.
Alguns têm necessidade de momentos a sós com a Divina Mãe, independentemente de seus exercícios, nos quais sua alma se abre frente a seu coração. Pode ser uma descarga da sensibilidade espiritual que não alcança a ser controlada pelo exercício, ou também verdadeiros chamados interiores. Porém pode ocorrer porque o exercício não seja a expressão genuína da alma e suas necessidades fundamentais. Ao limitar-se a ser um pensamento organizado e desenvolvido ordenadamente, não trabalha com todas as forças da alma. É bom ter um conhecimento profundo do método, dos modos de pedir, da forma de despertar a emotividade. Sem embargo, ainda quando se o possui, é valido somente para o exercício falado, porque quando se passa ao exercício mental pode advir a divagação, a pobreza das imagens e emoções, a aridez, o cansaço. Falta a força persuasiva, a sugestiva e a magnética da palavra falada. Esta deve ser suprida pela força interior da alma que a conduz à verdadeira meditação.
A palavra cria o clima da meditação segundo o matiz da força imposta no exercício até conseguir a vontade dos sentimentos profundos e intensos.
Este exercício é uma verdadeira ciência. Para obter seus resultados não é imprescindível um estudo analítico exaustivo do mesmo; basta fazê-lo metodicamente. Mas devem conhecê-lo aqueles que guiam as almas.
Ensinança 7: O Exercício da Meditação
No exercício da meditação há que ir conseguindo uma paulatina simplificação, não só no discurso e os quadros, senão no modo de relação do discurso e o quadro respeito da alma.
Ao início é indispensável conseguir uma técnica da meditação; caso contrário o exercício se perde no esforço por realizá-lo. Porém quando a técnica já é própria há que cuidar que o exercício não se limite a uma técnica.
O exercício é uma técnica, mas deve ser dinâmica, viva; senão é uma repetição continua e não uma oração continua.
Chega um momento em que se conhece perfeitamente quais molas interiores tocar para conseguir o estímulo necessário para uma emoção determinada e quando se há conseguido algum sentimento superior todo o esforço seguinte pode consistir em tornar a repetir a experiência, sem compreender que já é própria. Isso é fazer da ascética um fim. Não é necessário voltar a viver o já conhecido quando se fez do conhecimento uma experiência exaustiva.
A alma deve tender cada vez mais alto; o exercício da meditação há de ser um jogo livre da alma que busca a realização divina. Ficando a técnica conhecida como o contorno apenas desenhado e necessário de controle.
O Filho não deve ir à meditação como uma rotina, senão fazer cada vez mais vivo e real seu contato com a Divina Mãe e deve ser muito sincero consigo mesmo.
Como já se tem estabelecido que é o bom que há que buscar e o mau que descartar, que é o que há que pedir e como fazê-lo, esses preconceitos solem mover as verdadeiras necessidades e problemas da alma, particularmente os estados vocacionais que devem surgir na meditação. Como por outra parte há uma idealização do eu, a meditação pode não estar em relação com a realidade viva desse momento na alma e não pode ter um efeito total.
É difícil que os problemas reais se apresentem diretamente tal como são. O que aparece são tendências, desejos, sentimentos que afloram em forma desordenada. É imprescindível lutar e vencer as imperfeições, mas é bom conhecer o fundo que sole ser comum a muitas delas que constituem o centro do trabalho ascético.
Isto não significa que sempre existam estados subconscientes que devem aflorar através de um profundo auto-analise; se trata de ter uma visão clara das próprias tendências para que suas expressões ativas não se confundam com a raiz do mal, o conflito fundamental.
É difícil que as almas tenham numerosos problemas interiores. Cada alma tem seu centro fundamental e quando este deixa de ser um conflito todos os aspectos que aparentemente pressionavam desaparecem. Por isso, ao meditar, e sempre, ao contemplar interiormente a própria alma há que ser muito claro para distinguir bem a origem dos desejos, especialmente daqueles que parecem muito justificados e ter realmente um sentido humano.
Na vida humana tudo é imperfeição e só a Renúncia, que parece gelo e desamor para os homens, é a verdadeira perfeição do amor.
Se a vida e o mundo são uma escola há que passar por eles em forma totalmente objetiva e nada deve aderir-se à alma. Esta atitude se aparece como uma insensibilidade e até crueldade incompreensível aos olhos dos homens. Por isso a mente transforma o problema anímico fundamental em inumeráveis considerações, perguntas insolúveis, inquietudes diversas e desejos sem sentido.
A meditação é o exercício que leva a alma a abrir-se passo entre a confusão de seus estados interiores ao encontro consigo mesma que é o encontro de sua vocação de Renúncia.
Se bem isto deve ocorrer o mais cedo possível na vida do Filho, é bom que suceda também em muitas almas que, se bem há muito tempo que estão no caminho, ainda não hão nascido realmente à verdadeira vida espiritual, aquela que é para eles e que se move sem atrever-se a afrontar sua vocação de Renúncia.
Ensinança 8: O Exercício da Meditação Intelectual
O Filho há de conhecer primeiro o exercício de meditação compreensivamente. Deve fazer da técnica uma técnica compreensiva, racional.
Primeiro é necessário discernir e cargar com a força compreensiva a palavra persuasiva. Se chega assim a um exercício compreensivo, auto-compreensivo. Discernem-se as tendências interiores, os obstáculos exteriores, se situa o objetivo transcendente e se estimulam as forças da alma para a realização espiritual. Porém não participa todo o ser. Participa o ser compreensivo somente; as emoções-sensações estão carregadas só com as forças do intelecto. A meditação intelectual é uma psicotécnica de alcance relativo porque não toca os estratos profundos da alma humana, nem permitem que aflorem. A posição intelectual é uma barreira insuperável, tanto para que suba o desconhecido inferior como para que desça o desconhecido superior.
A meditação intelectual cria uma realidade fictícia. Não é a atitude natural da alma, é a identificação do eu com uma seqüência de consideração. É fazer do não-eu um eu.
Há que fazer chegar a fazer do eu um não-eu por simplificação de Renúncia.
O exercício de meditação leva a um estado mais elevado que o habitual, porém é um estado mental natural. Há que alcançar um estado mental sobrenatural e isso não o consegue o exercício intelectual. Por isso, enquanto os Filhos aprendem a técnica e os diferentes exercícios, parecem adiantar na oração, mas uma vez terminado o aprendizado e conhecidos todos os métodos, como não passam de ali e da repetição continua se sentem estancados. O que fazem tem um grande valor, mas não dá valor transformante.
Só se pode transcender os estados naturais com uma ascética interior e exterior de renúncia, de paciência, de rotina, de sacrifício e de desaparição. A compreensão intelectual da Renúncia leva só até um ponto; unicamente a vida feita Renúncia conduz até o final.
Em síntese, os exercícios consistem em tomar consciência de si mesmo através de uma consideração sobre si mesmo ou o mundo. Isso é ir do conhecido ao conhecido. Uma só compreensão sobrenatural vale mais do que anos destes exercícios.
A meditação não consiste em ir do conhecido ao desconhecido, mas do desconhecido ao desconhecido, através de uma atitude negativa, estática, receptiva e profundíssima na totalidade da alma.
Ensinança 9: A Sensibilidade na Meditação
A vida espiritual não consiste em sublimar o sentimento. Por isso os Filhos que na meditação não fazem mais do que buscar uma sensibilidade mais elevada não passam além de um certo limite e não chegam nunca a controlar sua emotividade.
As almas que põem uma ênfase nos estados sensíveis obtidos nos exercícios ascéticos são almas débeis que não alcançam a compreender que a vida espiritual está muito além do que podem sentir ou pensar. Sempre que estejam esperando que aconteça algo se mantém pendentes do que sentem, do que sonham, do que crêem ver ou ouvir. São afetas às experiências psíquicas, porém habitualmente não apresentam fortaleza suficiente para enfrentar sinceramente a Renúncia. Enquanto perdem os estímulos sensíveis, tropeçam e caem.
É importante transcender rapidamente as exteriorizações sensíveis e colocar-se no que é verdadeiramente vida espiritual.
O ser deve ser totalmente transformado e não só na sua sensibilidade. A meditação como estado realiza este propósito.
A meditação espiritual não só usa a emotividade senão tampouco emprega a faculdade intelectiva da mente; faz da inteligência parcial uma inteligência total, espiritual. Muitas pessoas estão dotadas de inteligências específicas, mas se encontram muito poucas com penetração e inteligência espiritual, que é a única de valor real para o homem, já que o põe em contato direto com as verdades transcendentes e sobrenaturais.
A meditação toma todos os valores humanos e os transforma; através do uso da vontade determinante consegue uma vontade similar.
O estado sensível conseguido através do exercício da oração pode chegar a ser bastante elevado, mas nunca é verdadeiramente espiritual. É uma vibração mental afetiva provocada pela palavra e a imagem; é um movimento sensível da alma, não é ela mesma.
A exposição das necessidades, as sensações elevadas, tudo é bom, mas há que seguir adiante; todo é expressão da personalidade mental do ser.
No exercício se consegue uma emoção através da ação conjunta da palavra, a imagem, a sensibilidade. Pela simplificação gradual do mesmo se chega a um movimento inverso; nada se provoca através de um movimento exterior.
A técnica é usada negativamente. Nos exercícios a alma vá atrás da técnica. Na meditação não sucede assim. O controle se consegue através da mente espiritual. Se aos fins do exercício se diz algo, é o que ocorre. A palavra que antes ajudava a conseguir a sensação já não o faz assim. Simplesmente orienta o estado simples que já é através do cauce desejado. A palavra então é desnecessária.
Ensinança 10: A Meditação e a Técnica do Exercício
Quando a meditação se estabelece ao nível dos pensamentos correntes, que diferença tem com um formoso discurso, capaz de despertar emoções vivas, dito com ordem, método e tema estabelecido?
O valor da técnica consiste em que através dela se consegue a meditação. Há duas formas de fazer o exercício: como técnica e como técnica de meditação.
Como técnica é necessária uma consciência impessoal como reitora do exercício para fazer dele uma ciência viva e um empirismo dinâmico.
Como técnica de meditação, a técnica do exercício serve como meio, indispensável para adquirir paulatinamente estados contemplativos cada vez mais espirituais e elevados, até fazer da técnica dos exercícios uma técnica de contemplação.
O exercício da meditação deve ser dominado, mas não em sua técnica interna somente, senão como técnica. Para consegui-lo há que chegar paulatinamente a uma posição interior tão objetiva que, mais que desdobramento, seja um estado supra consciente. Então se deixa de trabalhar com as faculdades ou potências pessoais e se o faz, simplesmente, com forças. Só assim é possível conhece-las e dirigi-las.
Sempre o apego é um grau de ignorância, e enquanto subsiste a identificação pessoal é impossível o verdadeiro auto conhecimento. Isto não significa que se chegue ao desinteresse pala própria alma, senão que se consegue uma posição transcendente respeito a si mesmo. Só assim os exercícios ascéticos se convertem em verdadeira técnica de liberação. Deste modo a meditação se transforma em ciência, desde o momento em que se chega ao conhecimento de que nós somos aquele que pensa e sente.
O ser é capaz assim de experimentar com suas forças vivas e de adquirir uma técnica ascético-mística perfeitamente empírica e objetiva. Claro que esta ciência não obedece a um empirismo dimensional e contingente, senão a um empirismo sobrenatural e integral.
O ser na realidade há desaparecido para permanecer só a força espiritual necessária para manter a coesão do composto anímico. Este composto através da visão do espírito é perfeitamente experimentável, com suas leis próprias e precisas. É o verdadeiro instrumento do espírito,
De isto aos exercícios intelectuais de meditação há um universo de por meio. O erro é querer fazer da meditação uma ciência através do intelecto, quando a ciência espiritual só é possível através da Renúncia. As meditações intelectuais são em grande medida irreais. O intelecto cria uma realidade fictícia e não pode tocar nunca o fundo das coisas. Há que cambiar de dimensão; se poderá dizer que há que alcançar a dimensão interior, a profundidade do espírito inalcançável ao intelecto.
Só a Renúncia, como suma simplicidade, dá o contacto substancial com a essência simples e uma do saber.
Ensinança 11: A Invocação
Quando vá a meditar, o Filho começa com a repetição da fórmula correspondente para seguir logo com uma invocação mais ou menos uniforme, na que muda só o tema da mesma.
Há vários modos que variam desde a simples repetição do pedido até o final, até aquele que dirigindo uma olhada sobre si mesmo frente ao que descobre, pede o que considera necessário. Mas ocorre que dessa maneira o exercício se limita a ser só uma mudança de orientação dos pensamentos dentro do mesmo estado anterior à meditação. É só uma mudança de enfoque e isto não é meditar. A meditação deve levar uma a uma maior introspecção e não reduzir-se a um enunciado de desejos.
Por isso não corresponde colocar este tipo de invocação dentro da meditação; é só uma reflexão sobre um tema ou problema, algo que pode fazer-se em qualquer momento. E o que se pode fazer continuamente de forma natural não tem sentido realiza-lo para o instante da meditação.
A invocação é muito mais do que um pedido; é um esforço da alma para elevar seu estado mental e vibratório; é ante tudo um tomar consciência de si mesmo e partindo de ali alcançar um estado de consciência transcendente.
A invocação começa com um instante de silêncio. É o parêntese necessário entre um estado e outro.
Em lugar de começar a pedir em seguida o que se tem que pedir, descer até o fundo da alma e rogar desde esse silêncio. Ademais, a invocação não tem por que ser necessariamente um pedido ou um rogo. A invocação se limita a sê-lo unicamente enquanto a alma não é capaz de transformar seu estado mental através de um movimento interior simples. Por isso é necessário evitar na invocação a enumeração de motivos e razões, evitar o discurso; invocar simplesmente, puramente.
A alma não tem muitas necessidades; não precisa por este ou aquele motivo. Ela necessita à Divina Mãe.
Não importam as repetições. A monotonia não se evita com a arte do discurso; o discurso, ao fim, é uma monotonia racional. Não é a arte de expor o que evita a monotonia. Por mais belas que sejam as palavras haverá monotonia se não há vida interior.
O fundamental na invocação é aprender a cambiar a tônica do pensamento, o estado mental. Por isso é tão importante que a meditação seja o primeiro ato do dia, antes que a mente se dirija ao ritmo habitual de suas idéias. Logo, com a prática se terá a capacidade de conseguir esse câmbio em qualquer lugar e momento.
Este câmbio mental consiste principalmente numa detenção e inversão.
É necessário deter a corrente de pensamentos habituais, fazer silêncio. Em certo sentido imobilizar-se. Como a corrente do pensamento não pode deter-se, inverte seu movimento e toma uma dimensão interior.
Então começa a invocação. Já não fala a mente, que só pode reflexionar sobre os problemas da alma, mas é a vos da alma, a voz interior do ser. A invocação toma assim uma força e profundidade espiritual e se formula o desenho real e direto do tema a meditar.
O exame retrospectivo, corretamente realizado, produz naturalmente essa inversão de movimento, e a mudança de direção se expressa no estado de sono.
Esta capacidade, transladada à meditação, produz uma mudança de estado de consciência do habitual, a outro mais profundo e espiritual.
Quando isto se consegue também o exercício é conseguido; o exercício de meditação se faz meditação.
Ensinança 12: O Quadro Imaginativo
Na meditação afetiva se faz um quadro imaginativo, porém não todos podem ou devem chegar ao mesmo tipo de quadro.
Há almas que tudo vêem através de alguma imagem e outras são incapazes de fazer imagem alguma. Algumas, apesar de toda sua inteligência, não podem compreender nem ainda as coisas mais elementares se não as vêem, mais uma vez vistas entendem rápida e definitivamente. Da mesma maneira não podem despertar a emotividade senão através de um quadro objetivo que é nítido, cheio de vida e cor, que produz efeitos rápidos e profundos.
Há almas que não podem fazer imagens nem chegar à abstração através de um símbolo, mas podem ter facilidade para captar o abstrato diretamente. Embora saibam bem o que querem representar, seus quadros são mais bem subjetivos que objetivos. É mais um sentir que um ver.
Nas primeiras há que cuidar a excessiva riqueza imaginativa. Nas segundas há que saber guiar para que o exercício não seja infrutífero nem cansativo.
Há seres que parecem completamente insensíveis frente a quadros objetivos exteriores. Isto não quer dizer que sejam capazes de emoções, senão que necessitam outro tipo de estímulos. `Pode ser que nestes casos dê resultado outro tipo de quadro segundo a inclinação particular; a lembrança de algum feito do dia ou da vida, um sentir interior não determinado, um calor interior, uma chama no coração, uma luz que o envolve, um intuir uma presença, um saber que está ali.
Às vezes não se responde a imagens visuais, mas sim auditivas ou tácteis, ser tocado, ouvir uma voz.
Ademais o quadro imaginativo deve ser claro, simples e direto. Os muitos detalhes e qualificativos diluem o quadro fazendo-o uma pintura; se perde como estímulo.
O efeito deve ser direto; quando se faz através de uma consideração perde sua força.
Podem fazer-se também quadros por oposição; se está bem feito seu efeito é direto.
Ao dizer que o quadro há de ser claro não significa uma visão clara, às vezes impossível, senão uma idéia. Há pessoas de imaginação pouco objetiva que nunca conseguiram uma imagem, mas sim um quadro, o adequado para elas.
As imagens abstratas não determinadas permitem um vôo mais livre e espiritual da alma.
Ensinança 13: As Sensações
As sensações são um efeito direto do quadro imaginativo. Nem sempre é possível conseguir emoções intensas, nem é a finalidade do exercício, porém há que tender para um estado mental sentimental cada vez mais puro e elevado.
A intensidade das sensações conseguida está de acordo com o tipo de sensibilidade de cada alma, porém sempre depende diretamente do quadro imaginativo.
O quadro imaginativo é geralmente objetivo, ainda quando quem medita participa dele. Por exemplo, numa meditação do Véu de Ahehia se a vê recebendo a bênção: “Vejo que recebo a bênção; gozo com ela”. Este gozo é um gozo por consideração, mas não por participação. Então não pode ser genuinamente uma sensação formada pelo intelecto.
Produz-se o seguinte: “Vejo que recebo a bênção; sei o que é uma bênção e sei todo o bem que disso tira minha alma. Dou graças por poder receber a bênção; alegro-me por isso; gozo com isso”.
É claro que não se razoa assim, mas a consideração existe, é quae instantânea. Embora logo se diga que a alma se expande pela bênção ou nela, isso não é mais do que um modo de discorrer. Sabe-se que em realidade “teria” que gozar, expandir-se, viver essa bênção.
Confunde-se a sensação com a consideração da sensação. O mesmo sucede nas meditações purgativas; “Vejo que tenho um mau sentimento; o aborreço”. Mas esse aborrecimento não é tal; é o razoamento de que não é um bom sentir, que é algo mau e daninho que “teria” que aborrecer. Isso quer dizer que o quadro foi apresentado à consideração e não foi realmente um quadro total.
Os efeitos sensitivos podem produzir-se rapidamente e ser mais profundos se no quadro não há dualidade: “recebo a bênção” em lugar de: “vejo que recebo a bênção”; e tratar de perceber, de penetrar, de sentir nas células e o coração, essa força divina que vem à alma. Quando se é capaz de percebê-la o gozo vem só porque é a expansão conseguida com o contato divino.
No quadro de aborrecimento não só ver a má atitude, senão esforçar-se por tomar consciência ao mesmo tempo da obscuridão, a ignorância e o afastamento de Deus que isso significa. Em vez de ver somente, se percebe através de todo o ser essa ação; se começa a conhecer o terrível do estado de consciência de separatividade, mal e dor; e como sem buscá-lo se faz paralelo com o estado divino do bem e felicidade, se aborrece, não só com a consideração senão com todo o ser.
As sensações muito vivas solem ser as mais superficiais; as mais profundas e reais requerem mais silêncio. As grandes emoções são passageiras. As águas profundas não turvam a superfície. A “totalidade” da experiência não depende da intensidade marcada pela palavra sugestiva, senão da identificação entre sujeito e objeto que dá o conhecimento total do estado que se contempla. Nesta forma a meditação se transforma num verdadeiro descobrimento e em vez de ser uma experiência repetida, é uma experiência dinâmica.
Este tipo de quadro imaginativo depende das características individuais. As pessoas emotivas necessitam quadros curtos, sem entrar em detalhes. Evitar as sensações dentro do quadro, buscar a objetividade, não diluir-se em muitas palavras descritivas, não provocar uma intensidade exagerada nem demasiados matizes emotivos. Buscar uma sensação simples, única e ganhar profundidade.
Muitos têm dificuldade em conseguir as sensações por falta de imaginação para fazer o quadro. Geralmente, quando dizem “vejo” não vêem. Fazem quadros verbais e conseguem sensações verbais. Convém que tendam a quadros subjetivos, passando primeiro por quadros anedóticos de suas experiências mais marcadas.
Os muito intelectuais devem evitar as abstrações e razoamentos. Convém uma simplicidade quase infantil nos quadros, se é possível totalmente objetivos e descritivos. Uma vez purificado assim um intelecto podem passar a quadros subjetivos, primeiro sensíveis, logo mais abstratos.
Ensinança 14: Os Propósitos
Geralmente se adverte que se faz um corte no exercício ao chegar aos propósitos. A sensibilidade vai subindo de tom até culminar numa emoção única, mas quando há que fazer intervir a vontade numa direção definida facilmente se perde o estado de meditação. É como uma descida rápida ao plano das realizações humanas.
Nesta forma se perde a possibilidade de animar um propósito com uma força sobrenatural. A força está ali à disposição da alma mas não é usada.
Também aqui por esse corte, há uma dualidade dentro da meditação e os propósitos, se bem em si mesmos podem ser excelentes, não são a conseqüência natural do processo do exercício; todo o caudal energético movido pela invocação, o quadro e as sensações se desvanece.
A meditação é uma unidade, ainda como exercício. Não é uma unidade arbitrária, mas o desdobramento do mecanismo estímulo-reação natural do ser humano. Em vez de reagir arbitrariamente em forma incontrolada há que chegar a uma reação automática pré-dirigida. Para consegui-lo, as respostas devem passar através da consciência espiritual do ser. Ademais, o método seguido permite criar a força integral que a alma necessita para transcender a um estado superior de consciência. Não se espera que as energias naturais aflorem espontaneamente; se as estimula, se as controla e dirige até que se transformem em forças naturais, ou que produzam efeitos sobrenaturais e um resultado divino. A arte dos propósitos, no exercício da meditação é canalizar a força espiritual sem tocá-la, é dizer, sem perder na aplicação da vontade, a consciência expansiva conseguida até o momento. Interiormente se expressa como uma mudança de matriz do mesmo estado de consciência, e a clareza espiritual interior se transforma em energia pura que se plasma em atividades vitais, integrais, em vez de limitar-se a meros atos do ser.
O fundamental é mudar a atitude vital do indivíduo. Quando isto se consegue seus atos são conseqüentes e sua mudança exterior espontânea.
Ensinança 15: Dificuldades na Perseverança da Meditação
Apesar das recomendações de seus Diretores Espirituais, alguns Filhos não são constantes na prática de seus exercícios de meditação. Descartando a indolência, causa comum deste descuido, existem outros motivos que induzem a deixar o exercício.
No início os Filhos contam com uma força interior não transmutada que perdem através das paixões não controladas. Porém sempre fica um excedente de força que se manifesta como energia nervosa, que desgasta a mente e o corpo e esgota o sistema nervoso. Se expressa numa excitação habitual, tão habitual que parece normal.
Esta excitação é o primeiro obstáculo a vencer na meditação. Às vezes a meditação é a expressão matizada deste estado, porém muitas outras esta força é suficientemente potente para quebrar um hábito, pela necessidade de gastá-la numa descarga física, material.
A meditação potencializa a força ao sublimá-la e às vezes isto se torna quase insuportável para um sistema nervoso habituado ao pseudo-alivio de um gasto contínuo. É como se tivesse alfinetes no corpo ou na mente. Esta não sossega e a concentração parece impossível. Se começa a pensar que se perde o tempo e como justificativa se qualificam todas as práticas interiores de oração e ascéticas de ineficazes; se nega o que não se é capaz de realizar ou está além de uma compreensão viciada por um desequilíbrio interior e uma falta de controle mental. O escape se busca então na ação direta, no gasto violento de uma energia que se perde no vazio de uma obra infecunda. Poucas almas têm um discernimento claro e livre; geralmente são causas fisiológicas as que determinam a mudança de ideais.
Às vezes o exercício de meditação se abandona quando já se há percorrido boa parte do caminho místico, à altura da oração de quietude ou por uma aridez espiritual.
Não há que deixar nunca a prática do exercício da meditação, porque é o único apoio eficiente com que se conta quando se desvanecem as ilusões sensíveis. E quando se deixa custa muito tornar a fazê-lo, muito mais do que custou formar o hábito primeiro.
Ensinança 16: A Ressurreição de Hes
Se em todos os exercícios é necessária a concentração, ma meditação da Ressurreição de Hes é preciso conseguir uma completa abstração do meio ambiente; deve produzir-se uma verdadeira entrega à meditação. Esta concentração se consegue na invocação.
Aqui os passos são só uma orientação; sem embargo há uma técnica e nesta meditação se pode medir até onde pode se chegar com a técnica no exercício.
Já não é só uma técnica objetiva, senão uma técnica interior de manejo da emotividade, a sensibilidade e os estados interiores, através de uma super-consciência que planeja, por dizer assim, por cima de todo o processo interior porém que se manifesta apenas, só o indispensável para dar um sentido ao exercício.
Neste tema se pode comprovar como uma técnica pode levar à experiência de um estado sobrenatural.
O quadro imaginativo é indireto. A atenção não há de fixar-se na imagem, senão para onde esta induz. A imagem há de insinuar-se, mais do que apresentar-se fortemente como o faz em outros temas de meditação.
Imagens: o túmulo da Divina Mãe, a pedra negra e quadrada. Para os menos imaginativos, as imagens que fazem intuir o potencial, como o instante antes do amanhecer, uma semente, etc. Estes quadros não são muito eficazes, necessitam uma interpretação intelectual para situar-se na meditação.
Há quadros mais diretos, por exemplo um sentir obscuro e indefinido de sua presença não visualizada, até chegar a uma identificação espiritual com a expresão mais elevada da Divina Mãe.
A meditação se pode alcançar também através de um quadro de negações sucessivas dos sentidos, não ver, não sentir, não ouvir, etc. Isto não é difícil de conseguir se ao mesmo tempo se concentra a atenção na busca da presença divina não visualizada, nem percebida em forma sensível. É como avançar ma obscuridade com os braços estendidos sem achar nada, mas sabendo que está ali, até que nos transformemos na Divina Presença.
No despertar das sensações se segue uma graduação ascendente, enquanto que os passos da meditação se sucedem sem solução de continuidade. Se vê, se pressente, se sente, a gente se transforma Numa sensação, a sensação que já somos se expande até abarcá-lo tudo.
Nesta meditação não tem sentido discorrer, há que conseguir um estado mental superior ao intelectual e é impossível alcançá-lo através de um discurso intelectual.
Os quadros ativos dão sensações ativas, que não são as adequadas a esta meditação. Há que fazer quadros passivos negativos até conseguir um quadro subjetivo, para obter uma não imagem que imobilize a mente compreensiva e deixe a alma livre frente ao Divino.
A meditação sobre a Ressurreição de Hes só adquire sentido através do exercício passivo com imagem subjetiva.
Nos estados subjetivos já não se pode experimentar emoções externas, transformando-se tudo numa super-compreensão.
Como as meditações sobre os temas iluminativos são mais difíceis que o exercício dos temas purgativos, muitas vezes se tende a deixar demasiado tempo aos principiantes nestes. É um erro; é verdade que há que purificar a sensibilidade, mas ao mesmo tempo há que induzir às meditações amorosas, que levam a alma aos estados místicos.
INDICE:
Ensinança 1: A Ascética da Oração
Ensinança 2: Discernimento da Ascética
Ensinança 3: O Objetivo Divino
Ensinança 4: A Ascética Continuada
Ensinança 5: Autocontrole
Ensinança 6: A Meditação: Seu Aprendizado
Ensinança 7: O Exercício da Meditação
Ensinança 8: O Exercício da Meditação Intelectual
Ensinança 9: A Sensibilidade na Meditação
Ensinança 10: A Meditação e a Técnica do Exercício
Ensinança 11: A Invocação
Ensinança 12: O Quadro Imaginativo
Ensinança 13: As Sensações
Ensinança 14: Os Propósitos
Ensinança 15: Dificuldades na Perseverança da Meditação
Ensinança 16: A Ressurreição de Hes
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